domingo, 13 de janeiro de 2013

"...somos um do outro como nunca ninguém foi, estamos um no outro como nunca ninguém esteve"


"Passaram vinte anos, tanto, tão pouco. Estou ainda a ver-te sentada na cadeira de braços junto ao fogão, é uma tarde de Junho, ouvem-se os melros no jardim, pela porta aberta da varanda entre o cheiro de rosas recém-desabrochadas. Estás sentada e olhas-me com os teus olhos muito azuis, não dizes nada, só eles falam, só eles entre nós dirão o nunca dito. Sabes que tenho de partir, apetece-te chorar mas não choras, dentro em pouco virão chamar-nos para jantar, ouve-se já lá em cima o vaivém entre a cozinha e a sala, há uma aceleração dentro de ti, vê-se no teu arfar, este momento é único,irrepetível, é agora ou nunca, esperas que diga mas eu não digo, nem é preciso, para quê palavras, os olhos disseram tudo. Tu sabes e eu sei, basta estender uma mão para colher-te, somos um do outro como nunca ninguém foi, estamos um no outro como nunca ninguém esteve, não foi preciso entrar em ti, nem sequer nos tocámos, durante um breve instante não somos dois somos um, fundidos na corrente do olhar e do ser, há um rio subterrâneo que nos sobe até à garganta, se morrêssemos agora seríamos eternos, nunca estivemos tão perto, nunca estivemos tão longe, passaram vinte anos, tanto, tão pouco."

Manuel Alegre in O Homem do País Azul

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